Antipirataria
Anatel e Ancine vão bloquear streaming pirata ao vivo ainda em 2023
Em acordo de ação conjunta com a Ancine, a Anatel pretende avançar na estratégia e realizar o bloqueio de streamings piratas ao vivo. A ideia, segundo o conselheiro Moisés Moreira, é que isso possa começar a ser feito ainda este ano. A informação foi dada durante o Encontro Abrint 2023.
Segundo Moreira, com a agência de conteúdo audiovisual estando fisicamente no mesmo prédio da sede da Anatel em Brasília, foi montado um laboratório no mesmo andar para a ação conjunta. “Estamos finalizando o laboratório dentro da agência para que em breve, antes do final do meu mandato, possamos bloquear o conteúdo ao vivo”, declarou.
Para tanto, a Ancine vai identificar o conteúdo, seja pela marca d’água, seja pelo endereço de IP. “Não vamos acabar com a pirataria, mas vai reduzir muito, porque o consumidor que usa esse serviço ilegal acaba ficando desanimado. É um trabalho que tem que ser educativo também, o Ministério da Educação tem que tomar essa iniciativa”, declarou Moisés Moreira. A Anatel já efetua o bloqueio de streamings desde fevereiro, em parceria também com a Associação Brasileira de Televisão por Assinatura (ABTA).
Com isso, o conselheiro espera que seja possível derrubar a transmissão de programação ao vivo de forma ilegal, como o de partidas de futebol. Isso é também uma resposta a um problema que, segundo ele, tem deixado o País com uma reputação negativa no exterior. “Eu fui na Liga [federação do campeonato de futebol espanhol] em Madri, e lá eles mostraram que, naquele momento, tinha dois provedores transmitindo conteúdo ilegal deles no Brasil, e eram duas PPPs”, contou.
O conselheiro citou que dos 140 milhões de brasileiros que consomem conteúdo pela Internet, mais de 70 milhões o fazem por meios piratas. “Isso é triste. Aí falam: ‘Ah, mas a TV por assinatura é cara’. Não. Paga-se o Netflix com R$ 16 ou R$ 17 por mês, não justifica. E a indústria não faz conteúdo para ser roubado”, afirma. A assinatura mais básica desse serviço custa R$ 18,90/mês, mas vem com anúncios e com definição no máximo Full HD (1080p).
Sensibilização
Ex-secretária do Consumidor no Ministério da Justiça e também chefe do Plano Nacional de Combate à Pirataria, a procuradora-chefe do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), Juliana Domingues, concorda que é necessário haver uma educação para mudar a cultura do consumidor, até também para haver movimentação legislativa.
O diretor da Abrint André Rodrigues sugere que as prestadoras de pequeno porte podem servir de ponte e poderiam assumir o papel de educação junto ao consumidor. “Provedores têm a facilidade de ter o cliente à mão, cara a cara, já com o impacto. Podemos ser o canal de educação, já que sabemos quem está fazendo isso na hora do atendimento, independente de ser ilegal ou não.”
Na visão das empresas de TV por assinatura, esta é a principal barreira do setor. “O grande problema para a sustentabilidade é a pirataria audiovisual. Se a gente chegar à conclusão de que temos que desregular toda a oferta legal, todo o esforço deveria ser focado na pirataria”, declara o diretor jurídico e regulatório da ABTA, Jonas Antunes. De acordo com ele, essa proposição de mercado desregulado seria viável, sob o ponto de vista econômico. O impacto do conteúdo ilegal, afirma, é atualmente de R$ 12 bilhões, o que inclui até “dano ao erário”.
Antipirataria
Instrução Normativa 174 ANCINE autoriza bloqueio de sites piratas em 48 horas
A Instrução Normativa 174 ANCINE foi publicada em 10 de abril de 2026 e passou a regulamentar o combate administrativo à pirataria audiovisual no ambiente digital.
Neste artigo você vai entender:
- Como o órgão bloqueia sites piratas em 48 horas sem passar pelo Judiciário
- Por que o consumidor final está expressamente isento das sanções
- Como funciona o rito sumário para interromper transmissões ao vivo em tempo real
- O mecanismo de bloqueio dinâmico por 12 meses contra espelhos, IPs e subdomínios
O conteúdo serve a detentores de direitos, operadoras de pay TV, advogados de propriedade intelectual e produtores. Para o leitor comum, ajuda a entender por que o mercado legal sai fortalecido e onde começa e termina o alcance da norma.
Lei 14.815/2024 é a base legal da nova competência
A IN 174 regulamenta o art. 3º da Lei nº 14.815, sancionada em 15 de janeiro de 2024.
O texto alterou a Medida Provisória 2.228-1/2001 e a Lei do SeAC (12.485/2011). Conferiu à ANCINE competência expressa para determinar a suspensão e a cessação do uso não autorizado de obras audiovisuais nacionais e estrangeiras.
O parágrafo 2º detalha o alcance. A medida administrativa pode impedir emissão, difusão, transmissão, retransmissão, reprodução, acesso, distribuição, armazenamento, hospedagem, exibição e disponibilidade do conteúdo protegido.
Antes da lei, a agência apenas comunicava infrações e dependia de decisão judicial. Agora exerce poder de polícia tecnológica de forma direta, em linha com a Arcom francesa e a Agcom italiana.
O comunicado oficial da ANCINE confirma que a norma estabelece procedimentos administrativos ágeis para identificar, analisar e conter a oferta ilegal de conteúdos audiovisuais no ambiente digital brasileiro.
Norma isenta consumidor final e mira agentes econômicos da fraude
O art. 19 é categórico. A sanção não alcança a pessoa física que apenas consome o conteúdo, desde que não haja propósito de obter vantagem financeira direta ou indireta.
O alvo da regulamentação é outro:
- Administradores de clusters de servidores ilegais
- Desenvolvedores de aplicativos embarcados em TV Boxes
- Revendedores de assinaturas clandestinas de IPTV
- Intermediários que monetizam via mensalidade ou publicidade programática
A norma também preserva os usos livres dos arts. 45 a 48 da Lei 9.610/1998 (Direitos Autorais). Paródias, citações acadêmicas, exibições didáticas sem fim lucrativo, obras em domínio público e captação de arte em logradouros públicos seguem fora do escopo sancionatório.
Rito ordinário exige prova forense e fixa prazo de 48 horas
A representação só é admitida com prova técnica detalhada. Denúncia genérica é descartada.
O denunciante protocola formulário eletrônico oficial contendo:
- Qualificação fiscal do requerente (CPF ou CNPJ)
- Localizadores técnicos: URLs, domínios, subdomínios e endereços IP
- Prova de materialidade: capturas de tela e hiperlinks ativos
- Comprovação de titularidade dos direitos patrimoniais ou de exploração
Documentação deficiente gera notificação, e o requerente tem 30 dias improrrogáveis para regularizar o processo, sob pena de arquivamento. O filtro afasta denúncias temerárias.
Admitida a representação, os prazos passam a correr:
- Até 30 dias úteis para a ANCINE atestar o mérito da infração
- 48 horas para o responsável remover o conteúdo ou apresentar contestação
- Até 5 dias para envio das ordens de bloqueio à ANATEL
- 5 dias úteis de prazo recursal contra a decisão final
Quando o infrator não pode ser identificado, os prazos correm a partir da publicação em edital eletrônico no painel de transparência da agência.
Rito sumário interrompe transmissões ao vivo em tempo real
Evento ao vivo é o ponto mais sensível do combate à pirataria. Jogo de futebol, show e prova de MMA perdem valor econômico no instante em que terminam.
A IN 174 resolveu o problema com pré-qualificação tecnológica.
O mecanismo funciona assim:
- O detentor de direitos cadastra previamente data, horário e matrizes criptográficas do sinal
- Durante a transmissão, dispara alertas sancionatórios simultâneos
- A agência dispensa a admissibilidade prévia e executa o bloqueio em minutos
De acordo com o diretor-presidente da ANCINE, Alex Braga, o sistema automatizado atua em parceria com a ANATEL e neutraliza redirecionamentos em tempo real. É a primeira vez que o Brasil dispõe dessa capacidade operacional.
Bloqueio dinâmico estende restrição por 12 meses
Bloqueio estático nunca funcionou contra pirataria digital. Derrubado o domínio principal, a operação subia dezenas de espelhos em minutos.
A nova regra impõe bloqueio dinâmico e contínuo por 12 meses. A decisão original se estende automaticamente a:
- Novos domínios e subdomínios da mesma operação
- Redirecionamentos algorítmicos e URLs secundárias
- Novos endereços IP vinculados à infraestrutura condenada
- Variações tecnológicas posteriores como mirrors, apps e deep cache
A ordem de contenção atinge múltiplas camadas da internet:
- ISPs aplicam BGP blackholing nas rotas do alvo
- Servidores DNS públicos removem a tradução do domínio
- CDNs e provedores em nuvem rescindem o suporte técnico
- Registro.br inviabiliza novos domínios
.brligados ao autuado - Motores de busca promovem a desindexação dos alvos
Parceria com Anatel derrubou 10,7 mil alvos em projetos-piloto
A execução técnica cabe à ANATEL. A ANCINE decide e repassa as listas de URLs, domínios e IPs; a agência de telecomunicações coordena o cumprimento junto a operadoras primárias, backbones e Prestadoras de Pequeno Porte.
Os projetos-piloto do acordo de cooperação técnica entre 2023 e o primeiro trimestre de 2026 validaram o modelo. Foram 10.700 alvos desativados na rede nacional, com queda de 80,5% nos acessos a serviços ilegais.
Segundo Alex Braga, a agência ampliou o quadro de servidores dedicados e a integração tecnológica para absorver o volume de denúncias previsto sob a nova norma.
Os números dos projetos-piloto vêm do acordo de cooperação Anatel-Ancine, que estruturou a divisão de competências regulatórias hoje consolidada pela Instrução Normativa 174.
Regra prevê asfixia financeira via CNCP, OMPI e TAG
Desligar servidor não encerra a operação criminosa. O capital precisa secar.
A IN 174 determina o compartilhamento dos dados dos infratores com o Conselho Nacional de Combate à Pirataria (CNCP), vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública. A partir dali:
- Os alvos entram na lista global de sítios infratores da OMPI
- Os registros são enviados ao Trustworthy Accountability Group (TAG) para descredenciamento publicitário
- Operadoras globais de cartão interrompem o processamento de assinaturas
As sanções pecuniárias do setor audiovisual aplicam escala progressiva:
- Infrações leves: de R$ 2.000 a R$ 100.000
- Infrações graves: de R$ 101.000 a R$ 1.000.000
- Infrações gravíssimas: de R$ 1.000.001 a R$ 2.000.000
Há responsabilização solidária dos administradores pessoa física em caso de má-fé comprovada.
Atuação de ofício autoriza bloqueio sem denúncia prévia
A minuta original da Instrução Normativa 174 ANCINE previa atuação apenas por provocação. Em março de 2026, a Diretoria Colegiada incluiu expressamente a atuação de ofício.
A Secretaria de Regulação passa a instaurar procedimentos sem denúncia formal, conduzir varreduras técnicas ativas e emitir bloqueios por iniciativa própria.
A competência convalida a integração orgânica com o Laboratório de Operações Cibernéticas do MJSP e com a Operação 404, que opera em cooperação com forças policiais de Reino Unido, Peru, Equador, Argentina e Paraguai.
Relatórios semestrais respondem a risco de overblocking
A Coalizão Direitos na Rede e observadores do CGI.br apontam o risco técnico do overblocking. Um IP compartilhado pode hospedar centenas de sites, e o bloqueio de um alvo pirata arrasta conteúdos legítimos junto.
A norma estabeleceu contrapeso. A agência é obrigada a publicar relatórios de transparência semestrais contendo:
- Volume consolidado dos atos sancionatórios
- Percentual de acusações versus defesas acolhidas
- Natureza das redes desativadas
- Indicadores de eficiência do rito de ofício
A publicação periódica responde à preocupação constitucional sobre liberdade de expressão e dá auditabilidade ao novo poder administrativo.
A norma não elimina a pirataria digital no Brasil, mas reduz drasticamente o tempo de resposta do Estado. Para os titulares de direitos, a pergunta operacional mudou: não é mais se o bloqueio é viável, e sim qual dos três ritos previstos é o mais adequado para cada caso.
Antipirataria
Seedance 2.0 e a Pirataria com IA: Como a Indústria do Entretenimento Reagiu em Bloco
A pirataria com IA deixou de ser risco teórico. Em fevereiro de 2026, virou crise real com nome e endereço: Seedance 2.0, ferramenta de vídeo da ByteDance, dona do TikTok.
Aqui você vai ver:
- Quem notificou a ByteDance e o que cada estúdio está exigindo
- Como sindicatos, governos e a MPA entraram na mesma ofensiva
- Por que o acordo Disney-OpenAI mostra o caminho oposto ao da ByteDance
- O que muda na luta antipirataria a partir de agora
Se você acompanha propriedade intelectual, direito autoral ou tecnologia, esse é o caso que vai definir os próximos anos.
Há poucos meses, a conversa sobre IA no entretenimento girava em torno de licenciamento, parcerias e uso controlado. A partir de fevereiro de 2026, o tom mudou. Não é mais negociação. É confronto.
O que o Seedance 2.0 fez para provocar essa reação
O Seedance 2.0 é um gerador de vídeo por IA que transforma comandos de texto em cenas realistas. Disponível inicialmente só na China, a ferramenta usa a base de 1,5 bilhão de usuários ativos das plataformas da ByteDance como insumo.
O problema estourou quando vídeos criados pela ferramenta começaram a viralizar. Um deles, publicado pelo cineasta irlandês Rauiri Robinson, mostrava versões hiper-realistas de Tom Cruise e Brad Pitt lutando num cenário pós-apocalíptico. Foi feito com duas linhas de prompt. Acumulou mais de 1,6 milhão de visualizações.
Antes de continuar, olha isso: o roteirista Rhett Reese, que escreveu Deadpool, comentou o vídeo com a frase “eu odeio dizer, mas provavelmente acabou pra gente”. Não foi exagero retórico. A qualidade do material gerado tornou quase impossível distinguir o conteúdo artificial do original.
E o Seedance não se limitou a celebridades. Personagens de Stranger Things, Round 6, Bridgerton, Star Wars, Marvel, South Park, Bob Esponja, O Poderoso Chefão e dezenas de outras franquias foram reproduzidos sem qualquer autorização.
Quem entrou na ofensiva contra a ByteDance
A primeira reação formal veio da MPA (Motion Picture Association), que representa os maiores estúdios de Hollywood e plataformas como Netflix e Prime Video. Em 12 de fevereiro, o CEO Charles Rivkin declarou publicamente que o Seedance 2.0 realizou uso não autorizado de obras americanas protegidas “em escala massiva”.
Nos dias seguintes, as notificações extrajudiciais começaram a chegar uma atrás da outra:
Disney foi a mais dura. Acusou a ByteDance de montar uma “biblioteca pirata” com personagens da Marvel, Star Wars e Pixar, tratados como se fossem material de domínio público.
Paramount Skydance detalhou a lista de franquias violadas, de Star Trek a Tartarugas Ninja, e classificou os vídeos como “concorrência desleal”.
Netflix ameaçou litígio imediato. A diretora de litígios, Mindy LeMoine, chamou o Seedance de “motor de pirataria de alta velocidade” e deu prazo de três dias para a ByteDance responder.
Warner Bros. destacou a ironia de que o próprio conselheiro jurídico da ByteDance, John Rogovin, havia atuado anteriormente na defesa de personagens como Superman e Batman.
Sony Pictures fechou o ciclo exigindo a remoção imediata de propriedades como Breaking Bad e Spider-Verse dos dados de treinamento.
Esse é o ponto que separa esse caso de qualquer outro: cinco grandes estúdios, de forma coordenada, numa mesma semana, contra o mesmo alvo. Não acontecia nada parecido na história recente do combate à pirataria.
Essa mobilização coordenada não é inédita. Já em 2020, Hollywood e Netflix se uniram contra o MoviesTime, um dos maiores sites piratas da época, numa ofensiva que antecipou o cenário atual.
SAG-AFTRA e a defesa dos atores e profissionais
A ofensiva não ficou restrita a estúdios. O sindicato SAG-AFTRA, que representa 160 mil profissionais do entretenimento nos Estados Unidos, se posicionou com firmeza.
O próprio presidente do sindicato, o ator Sean Astin, teve sua imagem e voz reproduzidas sem consentimento. Em um vídeo gerado pelo Seedance, ele aparece como Samwise Gamgee, de O Senhor dos Anéis, com fala e entonação sintéticas.
Em nota oficial, o SAG-AFTRA disse que o Seedance “desrespeita a lei, a ética, os padrões da indústria e os princípios básicos de consentimento”. A coalizão Human Artistry Campaign, que reúne o SAG-AFTRA e o Directors Guild of America, foi além: chamou o lançamento do Seedance 2.0 de “um ataque a cada criador do mundo”.
Isso aqui evita confusão: a questão não é só sobre marcas e franquias. É sobre a substituição de trabalho humano por performances sintéticas. Se uma IA pode gerar a voz e a imagem de um ator sem contrato, sem cachê e sem consentimento, o modelo de emprego da indústria inteira está em risco.
Japão abre investigação própria sobre inteligência artificial e anime
A pressão ultrapassou os Estados Unidos. O governo do Japão abriu investigação formal contra a ByteDance após a circulação de vídeos com personagens de animes e mangás populares, incluindo Detective Conan e Ultraman.
A ministra de IA do Japão, Kimi Onoda, declarou que “não se pode ignorar uma situação em que conteúdos são usados sem a permissão dos detentores dos direitos”. O Japão estima que a distribuição ilegal online gera prejuízos de aproximadamente 8,5 trilhões de ienes por ano (cerca de US$ 55 bilhões) para o setor de mangá e anime.
A investigação japonesa acrescenta uma camada geopolítica ao conflito. Quando governos nacionais começam a agir contra empresas de tecnologia estrangeiras por violações de direitos autorais, o combate à pirataria ganha outra dimensão.
O contraste com o acordo Disney-OpenAI
E aqui está o ponto mais revelador de toda essa crise.
Em dezembro de 2025, a Disney fechou um acordo de licenciamento com a OpenAI no valor de US$ 1 bilhão. O contrato dá acesso controlado a mais de 200 personagens de Disney, Marvel, Pixar e Star Wars para geração de vídeos curtos no Sora, a plataforma de vídeo por IA da OpenAI.
Esse acordo tem regras claras: nada de vozes de atores, nada de likenesses reais, comitê conjunto de supervisão, curadoria de conteúdo e distribuição exclusiva pelo Disney+. A Disney mantém controle sobre como seus personagens são usados.
O contraste com o Seedance não poderia ser mais nítido. De um lado, uma parceria licenciada, com guardrails, compensação financeira e respeito à propriedade intelectual. Do outro, uma ferramenta lançada sem proteções mínimas, que a conselheira geral da MPA chamou de “infração sistêmica, não acidental”.
A frase da carta da MPA resume o cenário: “a violação de direitos autorais do Seedance é uma funcionalidade, não um bug.”
Pirataria com IA como ameaça sistêmica
O caso Seedance 2.0 não é um episódio isolado. É a confirmação de que a luta contra a pirataria mudou de escala.
Não se trata mais de derrubar sites de torrent ou bloquear servidores de IPTV. Agora, o combate precisa cobrir treinamento de modelos de IA com material protegido, geração automatizada de obras derivadas, reprodução de voz e imagem sem consentimento e distribuição massiva por redes sociais com bilhões de usuários.
Estúdios, sindicatos, associações de classe e governos estão agindo na mesma direção, pela primeira vez de forma coordenada. A pirataria com IA obrigou uma resposta a 360 graus: jurídica, regulatória, tecnológica e política.
O desafio agora é transformar essa mobilização em resultado concreto. A MPA deu prazo até 27 de fevereiro para a ByteDance apresentar medidas específicas. A resposta da empresa, até aqui, se limitou a declarações genéricas sobre “respeito à propriedade intelectual” e promessas vagas de reforço nas salvaguardas.
Um advogado especializado em entretenimento resumiu o cenário para a Al Jazeera: “este é o começo de um caminho difícil para a indústria cinematográfica. A tecnologia digital avança muito mais rápido do que os tribunais.”
Se a ByteDance não agir com seriedade, os estúdios já sinalizaram o próximo passo: litígio. Mas processar uma empresa sediada na China, sob a Convenção de Haia, pode levar de 18 a 24 meses só para a citação formal.
A pirataria com inteligência artificial não espera decisão judicial. E é exatamente por isso que a resposta precisa ser tão ampla quanto a ameaça.
